Banho gelado: tendência ou ciência?
Saúde
16/06/2026
A terapia com água fria atravessa séculos e ressurge como ferramenta da medicina do estilo de vida
Por Mariela Silveira*
Grandes descobertas parecem surgir como novidades absolutas, quando são conhecimentos antigos revisitados pela ciência contemporânea. É o caso do banho gelado.
Entrar em uma banheira cheia de gelo e postar nas redes sociais virou símbolo de disciplina, autocuidado e alta performance. Mas o uso terapêutico do frio acompanha a humanidade há mais de 2.500 anos. Na Grécia Antiga, Hipócrates já descrevia a água fria para recuperação física, alívio de dores e melhora da vitalidade. O Império Romano desenvolveu as termas com alternância de temperaturas. Aliás, a expressão SPA deriva do latim Salus per aquam: saúde através da água.
No século 19, Sebastian Kneipp utilizava o frio como ferramenta terapêutica. Meu pai, o Dr. Luís Carlos Silveira, fundador do Kurotel, inspirou-se nesses conceitos ao estruturar o Método Kur, escrito em 1971.
Há uma maneira correta de utilizar cada recurso hidrotermal. Cada técnica tem indicações, mecanismos fisiológicos específicos e contraindicações.
O frio provoca vasoconstrição periférica, direcionando maior volume sanguíneo para regiões centrais do corpo. Já o calor promove vasodilatação, relaxamento muscular e melhora da perfusão periférica.
Esses estímulos ativam uma cascata neuroquímica e hormonal. O frio aumenta norepinefrina e dopamina, substâncias relacionadas ao estado de alerta, foco e adaptação ao estresse. Já o calor favorece relaxamento autonômico, liberação de endorfinas e respostas cardiovasculares importantes.
Proteínas celulares de adaptação ao estresse térmico também são ativadas tanto pelo frio quanto pelo calor. O mais importante é entender que nem todo estímulo serve para qualquer pessoa — e nem para qualquer momento fisiológico.
Nas mulheres, a resposta térmica varia ao longo do ciclo hormonal. Após a menstruação, existe melhor tolerância ao frio e maior adaptação a estímulos intensos. Já na fase lútea, muitas mulheres toleram melhor estímulos de calor, que podem auxiliar relaxamento, sono e redução do estresse.
A banheira de gelo pode ser excelente após provas longas de corrida ou treinos intensos de endurance. Porém, esse mesmo efeito anti-inflamatório pode não ser desejável após treinos de força voltados para hipertrofia. Isso porque o frio reduz parte da sinalização inflamatória necessária para ativar a via metabólica mTOR, fundamental para síntese proteica e ganho de massa muscular. Na prática: o gelo pode beneficiar muito um corredor no pós-prova, mas talvez não seja a melhor estratégia logo após um treino pesado de musculação.
O mesmo aconteceu com a sauna. Hoje, estudos associam seu uso regular a melhora cardiovascular, menor risco de demência e redução da mortalidade geral.
Ou seja: quando corretamente indicada, a água pode ser uma ferramenta terapêutica extraordinária. O banho gelado não é uma moda do Instagram.
É um conhecimento milenar que a ciência moderna voltou a compreender.