Quem foi Angelita Habr-Gama, médica que revolucionou o tratamento do câncer no mundo
Saúde
01/06/2026
Primeira mulher residente em cirurgia na USP morreu aos 92 anos no último sábado, 30 de maio, e deixou um legado de pioneirismo e técnica que poupou milhares de pacientes de cirurgias mutiladoras
Por Redação | Foto: Reprodução/Instagram/habrgama
A medicina brasileira e mundial perdeu um de seus maiores ícones. Morreu no último sábado, 30 de maio, aos 92 anos, a médica e pesquisadora Dra. Angelita Habr-Gama, uma das profissionais mais premiadas e respeitadas do país. Conhecida por sua energia contagiante e por sua recusa em aceitar barreiras, ela revolucionou a oncologia e transformou a realidade de milhares de pacientes com câncer de reto no mundo inteiro.
Nascida em 1933 na Ilha de Marajó, no Pará, filha de imigrantes libaneses, Angelita mudou-se com a família para São Paulo ainda na infância, após a trágica perda de um irmão por apendicite. Foi o desejo de salvar vidas que a moveu em direção à medicina, enfrentando as expectativas da época para ingressar na prestigiada Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) em 1952, aos 19 anos.
Pioneirismo em um universo masculino
Em uma época em que a cirurgia era um território quase exclusivamente masculino, Angelita Habr-Gama rompeu estruturas ao se tornar a primeira mulher residente em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP e, mais tarde, a primeira professora titular em uma especialidade cirúrgica na instituição.
Com uma carreira fundamentada no rigor científico e na autoconfiança — que ela sempre defendeu como essencial para as mulheres na ciência —, tornou-se uma referência internacional absoluta em coloproctologia. Sua trajetória abriu as portas da cirurgia de alta complexidade para gerações de médicas brasileiras.
A revolução do ‘Watch and Wait’
A maior contribuição de Angelita para a ciência médica mundial foi o desenvolvimento do protocolo “Watch and Wait” (Observar e Esperar), idealizado por ela na década de 1990.
Até então, o tratamento padrão para o câncer de reto envolvia cirurgias altamente invasivas e, muitas vezes, mutiladoras. A técnica inovadora proposta por Angelita mudou essa lógica:
- Tratamento Inicial: O paciente passa primeiro por sessões de radioterapia e quimioterapia.
- Avaliação Crítica: Após as sessões, realiza-se uma triagem minuciosa para verificar se o tumor desapareceu por completo.
- Preservação: Caso a lesão tenha sumido, o paciente evita a mesa de cirurgia e passa a ser monitorado de perto com exames frequentes.
Essa abordagem evitou que milhares de pessoas ao redor do globo fossem submetidas a colostomias permanentes (o uso de bolsas externas para fezes), devolvendo-lhes a dignidade e a qualidade de vida. Inicialmente combatida pela comunidade médica internacional por ser considerada ousada demais, a técnica da Dra. Angelita foi consagrada ao ser formalmente incorporada às diretrizes americanas de oncologia.
Um legado de inspiração
A atuação da Dra. Angelita rendeu-lhe mais de 50 prêmios e a inclusão, pela Universidade de Stanford, na lista dos cientistas mais influentes do mundo. Na USP e no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, onde atuou por décadas, ela formou e inspirou legiões de médicos, mantendo-se ativa em consultório, pesquisas e cirurgias até os seus últimos meses de vida.
Além de sua genialidade técnica, Angelita era celebrada pelo profundo humanismo e otimismo inabalável. Casada por mais de 60 anos com o também cirurgião Joaquim Gama, ela deixa um legado eterno: provou que a ciência médica deve ser tão precisa quanto acolhedora e que, na busca pela cura, o “não” nunca deve ser aceito como resposta final.