Rafael Câmara pilota carro de F1 pela primeira vez em teste da Ferrari
Motor
21/05/2026
Primeira experiência de Rafael Câmara em um carro de Fórmula 1 aconteceu em Hungaroring, na Hungria
Por Redação
Foto Joe Portlock/Getty Images
O silêncio nos boxes de Hungaroring durou pouco. Quando o motor da Ferrari ganhou vida no último dia 16 de maio, ele não estava apenas movendo toneladas de engenharia italiana; estava carregando a expectativa de um país que há quase uma década não vê a bandeira verde e amarela no grid fixo da Fórmula 1.
No cockpit, o pernambucano Rafael Câmara, de 21 anos, realizava o rito de passagem mais importante de sua carreira até aqui: seu primeiro teste oficial com um carro da principal categoria do automobilismo mundial.
O ensaio privado, durante atividade prevista em regulamento pela FIA, utilizando o modelo SF-25 do ano anterior, não foi um mero prêmio de consolação ou jogada de marketing. Foi um teste de fogo técnico e físico para avaliar se o jovem está pronto para o pelotão de elite.
Uma ascensão calculada
Para quem acompanha o automobilismo de perto, a chegada de Câmara a um carro de F1 não é surpresa, mas sim a conclusão lógica de uma trajetória impecável. Desde que foi integrado à academia da Ferrari em 2022 — após brilhar no kartismo internacional —, o brasileiro vem queimando etapas com uma maturidade que impressiona os engenheiros de Maranello.
Sua temporada de 2024 na Fórmula Regional European Championship já havia sido um aviso. Mas foi em 2025 que Rafael colocou seu nome na história ao conquistar o título da Fórmula 3 com uma rodada de antecedência. Sob a chancela da FIA, ele se tornou o primeiro piloto a dominar a categoria de forma tão contundente desde a reformulação do grid em 2019. O feito lhe rendeu o prêmio FIA Rookie of the Year, consolidando-o como a propriedade mais valiosa da base ferrarista.
Linha do Tempo do Sucesso
- 2019: Vice-campeão Mundial de Kart (OK-Junior).
- 2022: Entrada na Ferrari Driver Academy; estreia avassaladora nos monopostos (F4 Italiana e F4 UAE).
- 2024: Campeão da FRECA com recorde de poles e vitórias.
- 2025: Campeão Mundial de Fórmula 3 e eleito Estreante do Ano pela FIA.
- 2026: Estreia na Fórmula 2 (Invicta Racing) e primeiro teste oficial de F1.
Anatomia do teste em Hungaroring
Diferente dos treinos livres de sexta-feira em finais de semana de GP (os chamados TL1), os testes privados da FDA oferecem ao piloto o que ele mais precisa: tempo de pista sem a pressão do cronômetro global.
Durante os dois dias de atividades em Budapeste, Câmara dividiu o cronograma com o sueco Dino Beganovic. O foco do brasileiro foi dividido em três pilares:
- Adaptação à Força G: O salto físico da F3/F2 para a F1 é brutal. Rafael passou por simulações severas de frenagem e sustentação de pescoço nas curvas de alta do circuito húngaro.
- Gerenciamento de Sistemas: O volante de um F1 opera como um supercomputador. O piloto precisou mapear o balanço de freios, entrega de potência híbrida (ERS) e diferenciais em tempo real.
- Consistência em Ritmo de Corrida: Mais do que buscar a volta mais rápida, a Ferrari exigiu stints longos com pneus de compostos diferentes para avaliar a capacidade de preservação da borracha — uma das maiores virtudes de Rafael na base.
“A velocidade de reta é impressionante, mas o que realmente choca é a velocidade com que você consegue contornar as curvas e a eficiência dos freios. É outro mundo. Mas o trabalho simulado em Maranello me deixou muito bem preparado”, relatou Câmara.
A sombra do hiato brasileiro
O Brasil não tem um piloto titular na Fórmula 1 desde a aposentadoria de Felipe Massa, no fim de 2017. De lá para cá, o país viu participações esporádicas (como as de Pietro Fittipaldi em 2020) e títulos de F2 (Felipe Drugovich em 2022), mas a vaga definitiva permaneceu esquiva.
Rafael Câmara surge com um diferencial político e técnico: ele está inserido no ecossistema da equipe mais tradicional da história. Frédéric Vasseur, chefe da equipe Ferrari, tem histórico de lapidar diamantes brutos (foi ele quem lançou Charles Leclerc na Sauber). Vasseur tem acompanhado de perto a transição de Rafael para a Fórmula 2 em 2026, onde o brasileiro corre pela Invicta Racing e já figura na vice-liderança do campeonato após as etapas iniciais.
Se a Ferrari tradicionalmente prefere colocar seus jovens pilotos em equipes parceiras (como a Haas ou a Sauber/Audi no passado) antes de promovê-los ao time principal, o teste de Hungaroring prova que o nome de Rafael está na mesa para as movimentações de mercado futuras.
O próximo destino
Sem tempo para celebrar o feito na Hungria, a realidade do campeonato de acesso chama de volta. O foco de Câmara retorna imediatamente para o cockpit da F2. Entre os dias 22 e 24 de maio, ele desembarca em Montreal, no Canadá, para uma rodada dupla que pode consolidar sua busca pelo título e, consequentemente, carimbar de vez sua superlicença para 2027.
O teste em Budapeste foi o cartão de visitas. Agora, o asfalto dirá o resto.