Grandes empresas viram fintechs para reter rentabilidade

Negócios

13/05/2026

Grandes empresas viram fintechs para reter rentabilidade

Com Pix dominante e endividamento recorde, companhias de diferentes s,etores passam a criar soluções próprias para gerar receita, fidelizar clientes e reduzir dependência de bancos

Por Redação

O avanço dos serviços financeiros digitais no Brasil está redesenhando o mapa de poder entre grandes empresas e bancos. Em um cenário onde o Pix já responde por mais da metade das transações no país e o volume financeiro movimentado ultrapassa trilhões de reais, a lógica mudou: crédito, pagamento e consumo agora caminham juntos — e não mais restritos às instituições financeiras.

Esse movimento ganha ainda mais força diante de um dado sensível: o endividamento das famílias brasileiras atingiu 80,4% em março de 2026, com quase um terço delas em atraso. A equação é direta: consumidores precisam de soluções mais flexíveis e empresas enxergam nisso uma oportunidade de ouro.

Na prática, companhias que já possuem base de clientes, dados e recorrência estão percebendo que também têm nas mãos os principais ativos de uma fintech. E, em vez de terceirizar serviços como crédito, pagamentos ou contas digitais, começam a internalizar essas soluções para capturar uma fatia maior da receita.

Gigantes do varejo já mostraram o caminho. O Magazine Luiza, por exemplo, acelerou sua estratégia ao adquirir a Hub Fintech, integrando serviços financeiros ao seu ecossistema digital. Já o Carrefour expandiu sua atuação com cartões, crédito, seguros e serviços que prolongam a jornada do consumidor para além da compra.

Para Letícia Moschioni, sócia fundadora da Finscale, o ponto central é que a empresa não precisa “virar banco” para capturar valor financeiro dentro da própria operação: “Muitas companhias já têm a base de clientes, os dados e a recorrência necessários para criar uma vertical financeira, mas ainda enxergam esse movimento como algo distante ou exclusivo das grandes fintechs. Quando a solução nasce conectada à jornada do cliente, ela deixa de ser apenas um produto financeiro e passa a resolver uma dor real do negócio”.

Mas o fenômeno deixou de ser exclusividade dos grandes players. Setores como educação, saúde, logística e franquias começam a explorar suas próprias verticais financeiras, transformando necessidades operacionais em novos fluxos de receita. Uma escola pode oferecer financiamento estudantil em vez de descontos. Uma clínica pode facilitar o acesso a tratamentos com crédito próprio. Uma empresa de logística pode antecipar recebíveis e organizar o fluxo de caixa de seus parceiros.

Mais do que faturamento, o impacto está na construção de ecossistemas mais eficientes e conectados. Em um ambiente onde o crédito segue caro e a inadimplência elevada, integrar soluções financeiras à jornada do cliente se torna também uma ferramenta de conversão e fidelização.

O Mercado Livre é um exemplo emblemático dessa convergência. Com investimento de R$ 57 bilhões no Brasil em 2026, a companhia amplia simultaneamente sua operação logística, marketplace e carteira de crédito por meio do Mercado Pago, consolidando um modelo onde comércio e finanças operam como uma engrenagem única.

Para especialistas, o futuro não será dominado apenas por novas fintechs, mas por empresas tradicionais que souberem “financeirizar” seus próprios negócios. O desafio, no entanto, exige mais do que tecnologia: envolve estratégia, gestão de risco e entendimento profundo da jornada do cliente.

No fim, a pergunta que começa a ecoar no mercado não é mais se uma empresa pode oferecer serviços financeiros, mas quanto ela está deixando de ganhar ao não fazer isso.