Um mercado. Dois ritmos
Mercado
23/04/2026
Imóveis populares e de luxo avançam, enquanto o segmento médio sente os efeitos dos juros e da redução do crédito
Por Luciano Amaral, CEO da Benx
A compra da casa própria representa a realização de um sonho, proporcionando segurança e acolhimento para quem adquire a propriedade. Muito se fala da valorização da mobilidade e experiência de vida — principalmente, por parte dos mais jovens —, mas a aquisição de moradias ainda é preferência da maioria dos brasileiros, incluindo pessoas da geração Z. Para investidores, a compra de uma casa ou um apartamento traz possibilidades de reserva de valor, renda pelo aluguel e venda futura.
Do ponto de vista da coletividade, o setor imobiliário tem papel transformador na urbanização e no crescimento das cidades, com investimentos em infraestrutura e espraiamento urbano, além do enfrentamento do déficit habitacional — segundo a Fundação João Pinheiro, faltavam 5,97 milhões de domicílios em 2023.
A construção é fundamental também na geração de empregos. Em 2025, o setor criou 87.878 postos de trabalho formais, e o número de trabalhadores com carteira assinada chegou a 2.945.157, segundo o CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
No mercado imobiliário, dois segmentos têm se destacado em lançamentos e vendas: o popular, que conta com juros menores e subsídios do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV), e o altíssimo padrão, que não depende de financiamento.
De janeiro a novembro, os lançamentos de imóveis do MCMV cresceram 34% em volume, enquanto as vendas aumentaram 8,7%, conforme o indicador Abrainc-Fipe, calculado pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) com dados de 20 empresas associadas à Abrainc (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias).
Por outro lado, a venda de moradias para a classe média desacelerou com a restrição de crédito da poupança. No acumulado dos 11 primeiros meses de 2025, houve alta de 16,9% dos lançamentos dos padrões médio e alto (MAP), mas queda de 18,6% no volume vendido.
Na cidade de São Paulo — o maior mercado imobiliário do Brasil —, os lançamentos aumentaram 34,2%, no ano passado, enquanto as vendas cresceram 9%, segundo o Secovi-SP (Sindicato da Habitação do Estado de São Paulo). O MCMV respondeu por 61% do total lançado.
Apesar da sua relevância, o setor segue preocupado com juros e custos da produção. Para haver recuperação de fato, com retomada da expansão imobiliária para as classes média e média-alta e sustentabilidade do crescimento do altíssimo padrão, a taxa de juros precisa cair para menos de 10%, o que pode levar dois anos para ocorrer.
Vivemos escassez e pressão de custos de mão-de-obra. À baixa industrialização do setor, se soma ao fato de que o filho do pedreiro não quer seguir a profissão do pai. Os preços dos materiais seguem equilibrados, mas estamos atentos a possíveis impactos dos conflitos internacionais no petróleo e, consequentemente, nos fretes e insumos dos canteiros de obras.
Na capital paulista — foco da Benx —, os valores de terrenos seguem elevados, pressionados por mais concorrência de incorporadoras de outros mercados que passaram a disputar também o cliente paulistano, e de gestoras de recursos. Não são poucos os desafios, mas a importância da moradia na vida das pessoas nos leva a prosseguir na atuação no setor.
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