Olhar apurado
Motor
20/03/2026
Como o colecionador Luiz da Silva Goshima se tornou o diretor do CARDE, o principal acervo de carros antigos e artes do Brasil
Por Mário Sérgio Venditti
O automóvel sempre exerceu um fascínio em muitos jovens e crianças. No caso do paulistano Luiz da Silva Goshima, 42 anos, o deslumbramento foi além de um simples objeto de desejo. Ele contribuiu para moldar sua personalidade e a forma de encarar a vida nos aspectos familiar, histórico e até financeiro. “O carro ativa lembranças nas pessoas e as transporta para dentro de si mesmas, despertando sentimentos, interesses e o senso ético”, define.
O amadurecimento de Goshima passou pelo culto ao automóvel desde menino, quando sentava no banco do motorista e, com as mãos grudadas no volante, contava os anos para poder dirigir. Na escola, chegava com figurinhas e fichas técnicas dos veículos para trocar informações com os amigos. “Esse costume me motivava a buscar conhecimento, estimulava meu cérebro.” Nostálgico, viajava na imaginação ao pensar como devia ser a vida na época do lançamento de modelos do passado — como Aero Willys e Chevrolet Bel Air —, embalados pelas canções de Paul Anka, Bill Halley e seus Cometas e The Platters.
Impossível, portanto, imaginar seu futuro longe da principal paixão. Por influência do pai, Luiz Harunari Goshima, também apaixonado pelas máquinas, mas sob a ótica da engenharia, ele desenvolveu uma ligação especial com os carros antigos. Mais que isso: passou a respirar antigomobilismo. Por isso, seus olhos brilharam quando soube que 120 carros do acervo de Og Pozzoli, patriarca do colecionismo brasileiro, estavam à venda em 2018, ano seguinte ao da morte do decano, aos 87 anos.
Aqui começa mais um importante capítulo da simbiose entre Luiz Goshima e o universo automotivo. Para não perder o negócio, ele recorreu ao pai, que era membro honorário do conselho da Fundação Lia Maria Aguiar. Os dois foram, então, conversar com a filantropa que dá nome à entidade e desenvolve um trabalho de inclusão social com 700 crianças de baixa renda na cidade de Campos do Jordão, a 170 quilômetros da capital paulista.
Lia, a quem Goshima chama de “tia” desde quando a conheceu, aos 5 anos de idade, gostou da proposta e fez um pedido. Queria ver fotos e detalhes dos modelos impressos e não só na tela do computador. “Preparei um catálogo minucioso e ela comentou que ali só tinha coisa boa”, lembra. Lia, pessoa física, decidiu comprar 102 exemplares e, de quebra, sugeriu a construção de um museu em Campos do Jordão para deixá-los em exposição. Era o ponto de partida para a criação do CARDE, acrônimo de carros, arte, design e educação — os três últimos, pilares do trabalho da fundação.

O nome antecipava que não poderia ser um museu qualquer. Aliás, Goshima, que se tornou diretor do CARDE, evita chamá-lo de museu. “Atrair para o local visitantes que gostam de carro é fácil. O objetivo era conquistar também um público que não é entusiasta e, para isso, usamos os veículos como fio condutor para contar uma história e tentar trazer à tona a memória afetiva das pessoas de forma lúdica.”
Inaugurado em novembro de 2024, o CARDE acomoda 120 modelos. No entanto, a coleção é composta por 500 automóveis, que se revezam na área de 6 mil metros quadrados no meio de uma floresta preservada de araucárias. Um comitê de curadores define os critérios do rodízio. Afinal, existem diversas combinações possíveis para construir a narrativa da indústria automotiva brasileira e a própria trajetória sociocultural do país. As joias que pertenceram a Pozzoli ganharam o reforço das coleções de Lia, de Goshima e de seu pai. Entre os mais atraentes estão o Dion Bouton (1902), o mais antigo do museu, Lincoln K (1939), Porsche 356 Carrera 2 GS (1964), Dodge Charger R/T (1971), VW SP2 (1972), Alfa Romeo Carabo (1968), Maserati Boomerang (1971) e Ferrari F40 (1987).
A ocupação das valiosas garagens de pai e filho começou no início dos anos 1990, quando a hiperinflação no Governo Collor corroía o poder aquisitivo dos brasileiros. Em vez de deixar o dinheiro guardado nos bancos, Luiz Harunari investia em carros, como duas picapes Ford D20, Volkswagen Gol e Ford Versailles. “Ele dizia que era uma maneira de proteger o patrimônio contra a desvalorização.” Luiz Goshima seguiu o mesmo caminho e, depois de juntar uma boa quantia de sua mesada, devidamente convertida em dólares, adquiriu seu primeiro carro aos 14 anos, um Fusca 1962, que custou US$ 2.650.
Com o CARDE, Goshima queria criar uma conexão com o passado, com interação e experiências sensoriais. Alguns projetos foram encomendados, sem alcançar o que ele almejava. Foi nesse momento que ele procurou o designer, cenógrafo e arquiteto Gringo Cardia, contratado para criar um espaço imersivo, com todas as salas equipadas com painéis de LED de alta definição, sistemas de som e cenografia. Em cada cômodo, os carros deveriam conviver com mobiliário antigo e obras de arte históricas, como as esculturas de Emanoel Araújo — arrematadas pela Fundação por R$ 30 milhões, em 2023 — e as telas “Operário”, de Cândido Portinari, e “Feira”, de Emiliano Di Cavalcanti.

Incorporar um dos alicerces da Fundação Lia Maria Aguiar, portanto, foi um caminho natural do CARDE. Nesse quesito, Goshima também guarda o legado do pai, que morreu em 2023. “Ele cuidava de seus quadros preferidos com esmero e me incentivava a frequentar leilões e antiquários”, relembra. “No começo eu achava estranho, porque considerava ambientes de pessoas mais velhas. Depois percebi a importância de valorizar cada detalhe das obras e o entalhamento de um móvel do século 18, por exemplo.” Certa vez, Goshima pediu ao pai um quadro para pendurar na parede de seu quarto e ouviu um não. “Ele me disse que se uma das pinturas saísse dali, deixaria de ser uma coleção.” E lá foi Goshima, assim como os automóveis, formar seu próprio conjunto de obras de arte.
Exercitar o olhar atento para identificar cada minúcia nas obras de arte e nos carros foi fundamental para colocar em prática o processo de restauração das raridades do CARDE. Os amigos costumam brincar que, por mais que um carro esteja com a preservação impecável, ele sempre encontrará algum defeito. “Nenhum exemplar do CARDE está 100% finalizado. Cinco minutos são suficientes para eu ver uma série de pequenas imperfeições.”
Não é à toa que o senso estético tem tanta importância no CARDE, que mantém um núcleo de restauração dos veículos, curso profissionalizante gratuito com duração de aproximadamente dois anos para os interessados — em sua maior parte, jovens e funcionários de oficina que buscam seguir outro caminho profissional. No futuro, o plano é expandir o núcleo para as áreas de artes plásticas e mobiliário, replicando a missão da Fundação Lia Maria Aguiar: a de abrir novas perspectivas e oportunidades na vida das pessoas.
Vida além dos motores
O amor desmedido por automóveis antigos não impede que o discreto empresário invista quantias elevadas em obras de arte. Um exemplo é o famoso quadro “A Caipirinha”, pintado em 1923 pela modernista Tarsila do Amaral, que ele comprou em 2020.
Se a vocação de garimpar raridades está em seu DNA, o mesmo acontece com o espírito empreendedor. Em paralelo ao comando do CARDE, Goshima atua como CEO da Meraki Capital Asset, empresa que criou para gerenciar fundos de investimentos, além de ser acionista em outros negócios pelo modelo family office.
Na época da criação da Fundação Lia Maria Aguiar, em 2008, a família Goshima tinha forte atuação no segmento de turismo em Campos do Jordão. Goshima adquiriu conhecimento suficiente na área para trilhar também no terreno da política: foi secretário de Turismo do município, cargo que ocupou de 2007 a 2009.
Apesar da agenda cheia, não abre mão de curtir a família, ao lado da mulher Vanessa e das filhas Luisa, 20 anos, Maria Clara, 1 ano, e a recém-nascida Maria Cecília. Afinal, não há nada mais valioso que isso.
LEIA TAMBÉM: