Os caminhos do futuro
Entrevista
17/03/2026
André Savino, presidente da Syngenta Proteção de Cultivos no Brasil, projeta os rumos do agronegócio para se tornar mais eficiente, produtivo e atualizado
Por Fran Oliveira
Retratos Germano Lüders
Natural de Santos (SP), André Savino formou-se em agronomia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 1996 e fez especializações nos Estados Unidos e na França. É hoje o presidente no Brasil da Syngenta Proteção de Cultivos, multinacional de tecnologias para agricultura com sede na Suíça e presença em 90 países. Essa unidade de negócios faz parte do Syngenta Group, que, entre outros produtos e serviços, oferece pesticidas químicos e biológicos, além de sementes (incluindo transgênicos).
Savino começou na empresa pouco depois de graduado e foi escalando posições. A escolha pela agronomia começou no interior paulista. Criado em Campinas, Savino passava férias na fazenda de parentes, em Monte Alto, onde seus tios plantavam mamões. Ali afeiçoou-se pela agricultura. Quando prestou vestibular, seus pais se surpreenderam. Perguntavam: “O que você vai fazer com a agronomia? Vai trabalhar em banco. Vai fazer outra coisa”.
“As férias na fazenda me marcaram. Jamais esqueci. No último ano da faculdade, vi um anúncio no grêmio estudantil da escola sobre oportunidade de emprego na Novartis, uma das empresas predecessoras da Syngenta. Candidatei-me para a entrevista, passei, e estou na empresa há 28 anos”, relata Savino, hoje feliz presidente da Syngenta Proteção de Cultivos no Brasil.
THE PRESIDENT_ Conte um pouco de sua jornada profissional.
André Savino – Trabalhei em todas as divisões da empresa. Morei em várias cidades, no Mato Grosso, no Mato Grosso do Sul, em Minas Gerais. Em 2004, vim para São Paulo. Aí fui galgando várias posições, entre marketing e vendas. Já liderei o varejo próprio da companhia. Ou seja, uma estratégia que nos permite acessar o cliente final em lugares onde não temos um varejo que consiga distribuir nossos produtos. Desde janeiro de 2024, eu estou como presidente.

Você acha que o agro, no quesito inovação e tecnologia, está no caminho certo?
O nosso agronegócio como um todo, o agronegócio brasileiro, é muito inovador. Se pararmos para pensar e olharmos os níveis de produtividade que o Brasil atingiu nas últimas décadas — comparando com os Estados Unidos, com os países da Europa e da Ásia —, nossa produtividade média por hectare cresceu muito mais do que a desses países. Isso se deve ao emprego de tecnologia de ponta. O agricultor brasileiro é muito aberto a utilizar a tecnologia de ponta. Isso se deve muito ao melhoramento genético que a agricultura obteve nesses últimos tempos. Também é muito importante a combinação público-privada orientando a produção da agricultura sustentável. A Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária] exerce um papel fundamental nesse processo.
O agronegócio no Brasil se tornou tão importante e reconhecido que criou até uma imagem midiática. Você diria que o nosso agro é pop?
O pop é uma frase oriunda de uma campanha publicitária para popularizar o agro, mas eu acho que hoje o agro é mais do que pop. Eu acho que ele é uma grande máquina propulsora da economia brasileira. É empregadora, traz inovação de ponta, assume a responsabilidade social. No terceiro trimestre de 2025, o PIB [Produto Interno Bruto] do agro foi muito superior aos demais PIBs dos outros setores. Seja ele de consumo, seja ele industrial, o PIB do agro puxou a média brasileira para cima. O Brasil ficou flat em relação ao mesmo período do ano passado, com 1%, e o agro passou de 9%. Ou seja, ele é mais do que pop. Temos que ressaltar, sempre, o papel da Embrapa. Porque é graças a ela que conseguimos criar uma agricultura produtiva, com melhoramento de solo e melhoramento genético Foi a Embrapa, por exemplo, quem deu os fundamentos para que começássemos a plantar e cultivar soja no Cerrado brasileiro.
Qual a importância dos agroquímicos para a indústria brasileira?
Por operar dentro de uma agricultura tropical, o Brasil, diferentemente dos Estados Unidos e dos países europeus, tem muitos desafios. Entre eles, o risco de novas pragas e doenças. Nos países temperados há, por exemplo, a neve. Ela quebra os ciclos de pragas e doenças. Já por aqui, por causa do clima, temos uma série de resistências, uma série de novas pragas surgindo. Praticar agricultura nesse ambiente demanda muita tecnologia. É preciso combinar o uso de defensivos agrícolas de origem química com aqueles de origem biológica. É necessário também combinar boas práticas de integração na lavoura, na pecuária, na floresta. Enfim, quando olhamos para tudo isso, notamos que a agricultura brasileira é de altíssima tecnologia. Já ultrapassamos, em volume, a produção de soja dos americanos. Em geral, produzimos mais soja, milho e grãos, energia. Somos o principal produtor de suco de laranja no mundo.
Qual a importância do chamado Mapito? Essa região oferece um futuro promissor para a agricultura?
O Mapito é a extensão do Cerrado. O Mato Grosso foi a primeira grande porta de crescimento. Incluindo também Goiás e Minas Gerais. Agora a próxima onda vem do que a gente chama de Mapito: Maranhão, Piauí, Tocantins.
Qual é o papel da agricultura brasileira no mundo?
Tanto do ponto de vista de alimentos como da necessidade energética, a agricultura é a grande mola propulsora para alimentar o mundo. Todos os biocombustíveis vêm do agro, seja o etanol de milho, seja o etanol de cana-de-açúcar, seja o biodiesel, que vem de soja. Há uma projeção, segundo o Relatório Perspectivas da População Mundial 2024, de que o total de habitantes do planeta, em meados da década de 2080, será de 10,3 bilhões. E quem que vai alimentar o mundo nos próximos 20 anos? Quem vai alimentar esse pessoal de uma maneira sustentável, sem ter que derrubar florestas? Não temos mais áreas disponíveis na Europa e nos Estados Unidos que tragam condições de clima e regiões disponíveis para fazer isso.
E como fazer isso sem derrubar árvores?
Basicamente, muito na conversão de áreas degradadas, de pastagens degradadas em agricultura. O marco regulatório impôs uma restrição. Não é possível desmatar mais, não é possível abrir novas áreas. E a gente não precisa fazer isso no Brasil. Temos muitas pastagens mal utilizadas. Pastagens que estão degradadas, que têm menos de um boi, uma cabeça de gado por hectare de pasto, o que é pouco. Como é que você transforma tudo isso em área produtiva? Apostando nessas regiões de expansão, que têm muitas áreas disponíveis, mas que, hoje, não estão totalmente exploradas. Há muitas empresas olhando pra isso, apostando nisso. Eu tenho certeza de que toda essa expansão, seja para alimento, seja para energia, virá dessas regiões. Por isso a Syngenta investe bastante nesse avanço.
Onde reside a diferença da Syngenta em relação às outras empresas do setor, no sentido de estratégias sólidas?
A Syngenta completou, recentemente, 25 anos de idade. Como empresa consolidada, ela é oriunda da Novartis, da fusão da Novartis com a AstraZeneca. Essa fusão aconteceu 25 anos atrás. E quando você faz 25 anos, tem de comemorar. E ao celebrar, você pensa que legado deixou. Inevitablemente, você pensa o que nos diferencia dos demais players. Temos duas grandes características que compõem o nosso DNA. Uma delas é a inovação. Somos uma empresa de pesquisa e desenvolvimento acelerado. Somos uma empresa que investe 10% do faturamento mundial no desenvolvimento de novos produtos. Produtos de ponta, inovação real para, realmente, entregar e endereçar os desafios que temos na agricultura tropical e em outros lugares do mundo. Inovamos em tudo que fazemos também, não só em produtos. Hoje muita gente fala em programa de sustentabilidade. Nós temos mais do que um discurso em prol da sustentabilidade.
O que é o REVERTE®?
É um projeto em parceria com o Banco Itaú BBA. Constrói um protocolo que ajuda o agricultor a realmente transformar o pasto degradado. Para isso, oferecemos uma linha de financiamento. O agricultor tem um protocolo a ser seguido para que consiga transformar o solo, deixar o sequestro de carbono numa equação negativa. Então somos mais do que um discurso. O projeto REVERTE® — comparado com todos os outros projetos dos nossos competidores — já é conhecido como o maior projeto com footprint com hectares convertidos.
Como atender o agricultor no quesito de soluções financeiras?
Observamos lá atrás que o agro tinha uma necessidade de se financiar. Então construímos uma plataforma financeira chamada Syde, que é como se fosse um grande marketplace que faz conexão entre o agricultor e os grandes agentes financeiros. Sejam eles fintechs, sejam os bancos tradicionais. Como falei antes, construímos um varejo próprio. A Syngenta lança de cinco a dez novos produtos por ano — mais sustentáveis, mais friendly ao meio ambiente. Inovamos em modelos de negócio para deixar o agricultor ter acesso a essa tecnologia, mas também ter acesso a financiamento e outros projetos que o fazem ter uma agricultura moderna, uma agricultura de ponta. Essa é uma inovação. Faz parte do nosso suporte. Faz parte do nosso DNA.
E qual é a segunda característica deste DNA?
A segunda é que somos uma instituição que se propõe a ser uma empresa de clientes. Ser uma empresa fácil de fazer negócio, com presença no campo, próximo do agricultor, para entender a necessidade dele, endereçar as necessidades dele, seja com produto, seja com oferta, seja com soluções integradas, mas, principalmente, ser uma empresa que chamamos de fácil de fazer negócio, ou seja, uma empresa desburocratizada. O agricultor nos contata e logo damos uma resposta para ele.
Como você projeta os próximos 25 anos da Syngenta?
É difícil projetar. Há 25 anos não pensávamos que iríamos nos comunicar virtualmente com outros países de forma instantânea, como acontece hoje. Mas consigo projetar quais são as “avenidas” que o agro vai trilhar. Acho que isso é o mais importante. Primeiro é inevitável pensar na matriz energética da população. Os combustíveis dos aviões, por exemplo, serão à base de SAF (Sustainable Aviation Fuel). Serão à base de combustíveis renováveis. Já os carros vão ter uma combinação de energia elétrica com uma tecnologia flex. E o flex dessa tecnologia dos automóveis virá dos biocombustíveis, que são do agro. Quanto aos alimentos, não sabemos que comida vamos comer. Mas, para alimentar 10 bilhões de pessoas em larga escala e de uma maneira competitiva, será preciso incentivar um agro que produza bons alimentos de uma maneira sustentável para o meio ambiente, com alto valor proteico e energético.
Que áreas do agronegócio terão maior crescimento?
Teremos que ter um melhoramento muito forte, para não produzir só soja, só milho. Vejo o crescimento de alimentos com alto teor proteico, porque a demanda por proteína vai ser cada vez mais pujante. Será preciso desenvolver fontes de proteínas em larga escala, mas com custo acessível para alimentar o mundo.
Sustentabilidade e inovação também terão um papel especial?
Haverá uma demanda por eficiência em escala, sem abrir mão da sustentabilidade. Acho que essa é uma vertente. Já temos visto nos últimos dez anos a valorização da sustentabilidade e das boas práticas agrícolas. Será uma agenda muito forte pros próximos dez, vinte anos. Acho que a inovação também é uma “avenida” que crescerá muito nos próximos 25 anos. Temos sempre empresas que buscam eficiência de custo, preço ou produtos genéricos. Faz parte. Trazem para o agricultor uma opção de custo mais acessível de algumas tecnologias. Mas a inovação é que traz ganho real. Faz realmente a disruptura de patamar de produtividade. Permite ao agricultor produzir mais, ter mais ganho econômico real, alimentar mais gente.