A felicidade é treinável
Artigos
16/03/2026
Estudos interdisciplinares, incluindo a neurociência, revelam que se aprende a viver bem, com saúde física e mental
Por Mariela Silveira
A felicidade é uma experiência subjetiva, mas profundamente influenciada por fatores objetivos e intersubjetivos. Não é um mero acaso: é cultivada, percebida e construída. E o melhor — pode ser treinada. Países nórdicos lideram os rankings do World Happiness Report graças a indicadores como suporte social, liberdade, generosidade e expectativa de vida saudável — pilares que sustentam o bem-estar coletivo. Segundo esse relatório, os dados do Brasil revelaram uma discrepância importante: jovens abaixo de 30 anos aparecem por volta da 60ª posição, enquanto os idosos acima de 60 anos figuram perto da 40ª no ranking global. Ou seja, a taxa geral de felicidade do país está sendo puxada para cima pela população da terceira idade.
Diversos fatores podem explicar esse fenômeno: uma compreensão mais madura de que problemas surgem, mas também se resolvem; menor exposição às pressões das redes sociais digitais; maior conexão olho no olho; e convivência com relacionamentos mais significativos. Essa constatação nos convida a refletir sobre a importância de fortalecer a saúde mental como um todo, apoiar o bem-estar dos jovens e aprender com a sabedoria emocional dos mais velhos. Do ponto de vista individual, o psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi explica a satisfação encontrada em atividades que combinam habilidade e desafio. Pesquisadores como Martin Seligman, pai da Psicologia Positiva, e Tal Ben-Shahar, professor de Harvard por décadas, demonstram que a felicidade é, em parte, uma escolha e um hábito. Ben-Shahar, que tivemos a satisfação de receber e aprender no Kurotel neste ano, evidencia que a felicidade se manifesta quando a priorizamos em cinco dimensões: física, emocional, intelectual, relacional e espiritual.
Isso inclui cuidar do corpo, praticar exercícios, garantir qualidade de sono, manter a mente ativa no aprendizado e na criatividade, cultivar espiritualidade e propósito, e valorizar relacionamentos consistentes. Um dos maiores estudos já realizados sobre felicidade — o “Harvard Study of Adult Development”, conduzido por Robert Waldinger e Marc Schulz — acompanha mais de 10 mil pessoas desde 1938. Ele demonstrou que a qualidade dos vínculos é o maior preditor de felicidade ao longo da vida. Não se trata apenas de estar cercado de pessoas, mas de cultivar relações verdadeiras, seguras e significativas. A neurociência confirma essa direção. Práticas como meditação, compaixão e altruísmo aumentam a atividade em áreas cerebrais como o córtex pré-frontal e a ínsula anterior — regiões associadas à empatia e ao bem-estar. A felicidade, portanto, não é algo frágil ou efêmero. Pode ser ensinada e cultivada. A neuroplasticidade está a favor do ser humano. Quando nos conectamos com o que nos dá sentido, cuidamos do corpo, da mente e das relações, acessamos uma vida mais plena, alinhada com aquilo que, de fato, nos realiza.