Entre arquitetura e design, com Juliana Pippi

Arte

11/03/2026

Entre arquitetura e design, com Juliana Pippi

Arquiteta aborda design, parcerias e novos lançamentos

Por Redação

Juliana Pippi fundou, em 2000, o escritório Juliana Pippi Arquitetura e Design, em Florianópolis. Ao longo de mais de 26 anos, levou seu trabalho para o design e direção criativa com a Casa Ateliê PIPPI Coleções, em São Paulo, desenvolvendo projetos para marcas e indústrias.
A arquiteta integra o World Design Rankings entre os destaques brasileiros em arquitetura e design e está entre as vencedoras do iF Design Award 2026. Assina ainda uma coleção de cortinas para a Unilux, apresentada em abril durante a Semana de Design de Milão. Recentemente, lançou a coleção Pra Perto do Sol para a DonaFlor Mobília, sua primeira linha de mobiliário para áreas externas.

A seguir, um bate-papo com a arquiteta Juliana Pippi.

THE PRESIDENT _ Como você percebe a evolução do seu escritório ao longo desses mais de 25 anos?

Eu vejo uma evolução muito orgânica. Cresci porque os projetos chamavam outros projetos, porque os clientes indicavam, porque as relações iam se aprofundando. No início, eu fazia de tudo, como todo mundo faz. Com o tempo, o escritório foi ganhando corpo, repertório, método. Hoje ele é mais maduro, mais consciente do que faz sentido para mim e do que não faz mais. Acho que isso é o maior ganho: entender onde colocar energia.

Hoje você atua entre arquitetura, design de produtos e direção criativa. Como essas diferentes frentes se conectam no seu trabalho?

Elas não são compartimentos separados. A arquitetura me ensinou a pensar espaço, proporção, uso, tempo. O design me trouxe uma atenção ainda maior ao detalhe, à escala humana, à materialidade. E a direção criativa organiza tudo isso dentro de uma lógica maior, de mercado, de comunicação, de estratégia.
No dia a dia, uma coisa alimenta a outra. Um projeto de uma casa ou apartamento gera um produto, um produto abre uma conversa com a indústria, essa conversa volta para a arquitetura de outra forma. Eu não consigo mais separar.

Qual foi a inspiração para criação da coleção de cortinas Linea, em parceria com a Unilux?

Eu parti da alfaiataria italiana como referência. Sempre me interessou a precisão do corte, das proporções e do caimento, e quis trazer essa lógica para o desenvolvimento dos tecidos. A partir daí, trabalhamos listras e ritmos que ajudam a estruturar o espaço e dialogar com a arquitetura.
Acompanhei todo o processo junto à Unilux, desde a criação dos tecidos até o desenho das cortinas, pensando em detalhes como pregas, barras e acabamento. Também buscamos materiais naturais, como algodão e linho, que filtram bem a luz e reforçam a ideia de tratar a cortina como parte da arquitetura, e não apenas como um elemento decorativo.

Pra Perto do Sol marca sua estreia no mobiliário para áreas externas. Em que momento esse tipo de peça passou a fazer sentido no seu trabalho?

Isso vem sendo desenhado há anos, na verdade. Eu trabalho muito no litoral, nasci em Florianópolis, tenho uma relação muito forte com o mar, com o clima, com esse modo de viver a praia. Em algum momento, ficou claro que fazia sentido traduzir isso em produtos. Mas não como uma coleção “de fora”, no sentido restrito. Eu queria peças que pudessem circular, entrar na casa, sair, funcionar em diferentes situações. Quando isso ficou claro, a coleção começou a tomar forma.

Seu trabalho envolve uma grande variedade de materiais. Como você define quais materiais entram em um projeto ou em uma coleção?

Eu gosto muito de material. Gosto de tocar, testar, entender o comportamento com o tempo. A escolha nunca é só estética. Ela vem do uso, do contexto, da durabilidade, da sensação que aquele material provoca. No caso dessa coleção, fazia sentido trabalhar com tecidos de alta performance (resistentes a intempéries), madeira, vidro, elementos que respondessem bem ao clima, mas que também funcionassem dentro de casa.

Como é esse equilíbrio entre liberdade criativa e realidade produtiva?

Eu escuto muito a indústria. Entendo limitações, processos, custos. Mas também provoco. Acho que esse é o meu papel. Não adianta desenhar algo lindo que não pode ser produzido, mas também não me interessa repetir fórmulas. O equilíbrio está na conversa. Quando isso acontece, o resultado costuma ser mais consistente e mais honesto.

Você costuma dizer que suas referências vêm da vida real. Como isso aparece hoje no seu trabalho?

Aparece o tempo todo. Nas viagens, na música que eu escuto, nas exposições, nas conversas, nos lugares por onde eu passo. Eu não busco referência apenas em tendências, mas também em vivência. E isso acaba aparecendo no desenho, no espaço, no produto, mesmo que a pessoa não saiba exatamente de onde vem. É um repertório que se constrói vivendo.